O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 16
(mudei o subtítulo)
Um homem franco e capaz
Após o golpe da República, houve, por iniciativa de Benjamin Constant, a criação de uma comissão encarregada de escrever o Código Penal Militar.
Essa comissão era composta por quatro grandes luminares do direito, tanto civil como militar — Marechal Visconde de Beaurepaire Rohan, ex-ministro da Guerra; General de brigada João Manoel de Lima e Silva; o auditor de guerra Agostinho de Carvalho Dias Lima; e Carlos Augusto de Carvalho, famoso jurista e diplomata. Entretanto, antes de sair o anteprojeto, o ministro Benjamim Constant, ao se indispor com Deodoro, foi substituído pelo marechal Floriano Peixoto. Floriano, que certamente conhecia a bagagem intelectual de Moreira César, remete-lhe o anteprojeto para a sua avaliação — como é que Euclides da Cunha comete o desplante de apresentá-lo como um ignorante?
Tempo depois, Floriano recebe a seguinte resposta, revelada pelo gal. Ferraz:
“Cidadão Ministro da Guerra Floriano Peixoto.
Agradecendo-vos a atenção de afetar à minha apreciação o Código… peço licença para francamente externar a minha opinião…
O Código Militar apresentado por essa comissão me parece péssimo [destaque de Ferraz]; contraria em muitos pontos dispositivos contidos em nossa lei base — a Constituição; apoia-se muitas vezes em disposições já derrogadas de códigos antigos.”
Uma página do site do Senado, que comenta sobre esse assunto, dizendo que “em 14 de janeiro de 1890, o ministro da Guerra nomeou uma comissão para elaborar o Código Penal e de Processo Militar. Resultou daí o projeto do Código de Justiça Militar para o Exército Brasileiro… Contudo, a substituição de Benjamin Constant por Floriano Peixoto à frente do Ministério da Guerra resultou na interrupção dos trabalhos da comissão do Exército.” (https://www2.senado.leg.br/bdsf/handle/id/178946).
Isso aconteceu por causa da opinião de Moreira César? Eis uma amostra incontestável de que ele era um dos homens mais cultos e respeitados, pelo seu preparo intelectual, do Exército Brasileiro, e até Floriano o reconhecia. Até o grande jurista militar Chrysolito de Gusmão, posteriormente, reconheceu grandes falhas nesse anteprojeto.
Como é que Euclides da Cunha quer nos convencer de que ele não passava de um completo ignorante com pavio curto, como quando cita uma desavença com um oficial argentino, por causa de uma palavra mal entendida? Alguém está mentindo, e eu não acredito que seja o general Ferraz.
Um encontro pessoal com Moreira César
O jornalista, poeta e escritor gaúcho Múcio Scevola Lopes Teixeira, mais conhecido como Múcio Teixeira, foi um dos jornalistas mais conceituados no Rio, do final do século XIX. Ele escreveu, numa edição comemorativa ao aniversário de um ano da publicação de Os sertões, de Euclides da Cunha, um artigo chamado “Os sertões (conclusão).”
Acompanhando a tendência geral, Múcio se rende acriticamente à obra de Cunha, derramando-se em elogios para, em seguida, descrever um encontro dele com César, em 1896. Esforçando-se para confirmar a grotesca invenção do autor da moda, ele cai no anacronismo de não perceber a mudança do tempo e da memória, sem perceber que escrevia agora com os olhos de quem se rendia ao novo ópio dos intelectuais, envolvidos pela aprovação social de Os Sertões:
“O livro de Euclides da Cunha, como ficou demonstrado, é uma obra histórica, uma obra científica e uma obra de arte. Analisando sob qualquer destes pontos de vista, resiste vitorioso às exigências da crítica e merece os mais sinceros louvores” (30).
Múcio lembra que conhecera César em um curso na Escola Militar em Porto Alegre, em 1873, e, segundo ele, César já dava sinais de um temperamento “impulsivo” — note-se a abrangência e a subjetividade do termo. A questão é: ele notou isso naquele tempo ou forçou agora, sugestionado por Cunha, semelhanças entre certos acontecimentos do passado e a nova ‘revelação’ sobre o seu ex-camarada. Ele começa a ajustar, sem perceber, as suas lembranças para amoldá-las ao texto de Euclides da Cunha.
Múcio relata que, em janeiro de 1896, quando fazia uma viagem de navio do Rio Grande para o Rio de Janeiro, Moreira César tomou esse mesmo navio em Florianópolis. Segundo Múcio, quando ele embarcou, vindo em um escaler, “acompanhado das autoridades estaduais e altas patentes militares”, um “murmúrio de imprecações correu de boca a boca”, que Múcio, em 1903, na época do artigo, o associou a Moreira César.
Um navio repleto de gaúchos devia ter entre eles alguns federalistas e gente contaminada por relatos falsos sobre Santa Catarina, embora a manifestação possa também ter sido contra a delegação de militares, e não a um deles em especial. Naquele momento, Múcio conversava com um casal e pode não ter percebido o contexto. Acreditou no que era melhor acreditar após ler Euclides Cunha.
Múcio também não revela o nome do casal, nem faz nenhuma citação que evoque uma antiga amizade entre eles. Somente diz: eu conversava no tombadilho com um oficial do exército, que assistira ao fuzilamento do Barão de Batovi, e a senhora desse oficial mostrava-se ainda vivamente indignada… Tudo indica um encontro casual, tanto que ele, depois, ficou conversando com César.
Então.
a) Esse oficial, com certeza, não pertencia ao 7º B.I., por ser ignorado por César, nem o ‘atilado’ repórter informa a que unidade ele pertencia na ocasião, nem se sua unidade serviu em Anhatomirim. Se a unidade dele servia em Anhatomirim, ele é coautor do crime, e a sua senhora, para ser coerente com a sua indignação, devia lançá-lo ao mar.
b) Se ele não servia lá, então foi assistir ao fuzilamento do barão como convidado? Quem o convidou?
c) Se ele assistiu a um crime militar tão grave, ele tinha a obrigação de denunciá-lo. Por que não o fez? Nesse caso, ele é que devia lançar-se ao mar.
d) Como ele viu o fuzilamento do barão, se este foi visto desembarcando vivo no Arsenal de Guerra do Rio de Janeiro, em 30 de abril de 1894, cinco dias após a data oficial do seu ‘fuzilamento’?
Esse homem está mentindo descaradamente. Ele não denunciou um “grave assassinato”, que ele presenciou, e ainda fica fazendo fofoca para os tolos de ocasião. Múcio continua.
“Moreira César… parou, abrindo-me os braços.
— Oh! Múcio! Que belo encontro!
— Oh! César!… (E abracei-o, humilhado, diante daquela senhora, que eu acabava de aplaudir, nas manifestações de ódio contra o homem que eu também acabava de acusar [que belo amigo!]). O vapor estava a pequena distância da fortaleza que servira de cadafalso a tantas vítimas [Anhatomirim?]…
— E quis a fatalidade que nos encontrássemos tão perto do teatro da tua crueldade… A heroicidade deve coincidir com a bondade: por que foste tão mau?
— Tens razão, disse-me ele. Houve exagero em tudo aquilo… Ficou um instante pensativo, com um ar melancólico. Mas, de repente, como se o fogo do inferno ardesse no seu olhar, sorriu, bradando…
— Mas se amanhã a República periclitar de novo, eu tornarei a fazer o mesmo que fiz! Então continuamos a passear juntos pelo tombadilho [ou seja, Múcio voltou a fingir-se amigo], conversando sobre os acontecimentos da revolução riograndense, passando ele em seguida a falar-me de seu péssimo estado de saúde: tinha vertigens amiudadas; mostrou-me uma cicatriz sobre a sobrancelha esquerda, que adquirira em uma congestão cerebral, pois caíra dias antes sobre uma mala, havendo grande hemorragia… [Múcio então lhe recomenda um novo tratamento hidroterápico, o do padre alemão Sebastian Kneipp, que entusiasmou o coronel]
Vamos nós…
Primeiro: que relação existe entre o tipo doentio e enrustido do César fabricado por Euclides da Cunha e esse homem que, ao se encontrar com um velho conhecido, abre os braços e agradece pelo encontro, como um típico brasileiro antigo?
Segundo: Múcio mostrou um comportamento dúbio e infantil. Foi dúbio por aceitar o abraço e a companhia de César, mesmo acreditando que ele era culpado, e infantil por assimilar, sem contestação, aquela informação recente. Ele podia ter questionado o casal.
Terceiro: a impressão que passa na descrição do encontro é que Múcio está falando para outros intelectuais e jornalistas euclidianos, com medo de ser por eles julgado, como se dissesse: “Eu fui amigo dele, mas deixei de sê-lo, e já naquele tempo eu desconfiava que havia algo errado.” Se fosse hoje, ele estaria em campanha nas redes sociais: “por favor, não me cancelem, eu acredito em Euclides da Cunha.”
Quarto: ao invés de aproveitar a ocasião e aprofundar a história dos fuzilamentos, ele aceita aquilo como verdade e condena a priori o amigo. Isso não explicaria o olhar de “melancolia”, talvez cansaço, de César?
Quinto: Quantas vezes ele foi ao inferno para saber a diferença entre um olhar que reproduz as chamas daquele lugar e outro qualquer? Ali, onde Múcio enxergou até o inferno, conforme ele imaginava em 1903, não enxergou, em 1896, uma grande oportunidade jornalística bem diante de seus olhos.
Sexto: A resposta de César não é a de quem tem culpa, pois nem nega nem tenta justificar qualquer excesso, e quando reconhece algo errado, fala de forma genérica, impessoal: “houve exagero em tudo aquilo”. Quando ele se refere à sua parte, mostra-se indiferente ao que o acusam: “Tornarei a fazer o mesmo que fiz”, como quem diz: “Não fiz nada errado, minha consciência está limpa… quer você acredite, quer não, e eu não vou lhe dar satisfações”.
Aliás, essa é uma característica de sua personalidade. Quando ele tem a consciência de que fez a coisa certa num assunto controvertido, não fica se explicando nem alonga a conversa — foi assim na resposta curta e protocolar que deu ao ministro da Guerra, foi assim com Múcio. Nesse sentido, ele difere da média.
Múcio, antecipadamente, já o julgara e condenara, e isso talvez explique por que o quase encontro dos dois na Bahia, durante a 3ª Expedição, não se realizou, apesar da proximidade. César, que ficara tão feliz em rever Múcio no navio, já não tinha nenhum interesse por ele.
Moreira César ainda ficou algum tempo conversando amenidades com Múcio, tentando, talvez, retomar a antiga amizade, mas, quando percebeu a inutilidade do esforço, largou de mão e se despediram para sempre.
Um jornalista crédulo e tonto perdeu uma grande oportunidade. E é só isso!
Nesse texto, porém, há um dado que vale a pena aprofundar: a moléstia que azucrinava a vida, e quiçá o juízo, de Moreira César.
Segundo o general Epaminondas Ferraz, em 1881, com 30 anos, ele obteve uma licença de 3 meses para se tratar de uma doença desconhecida. Então, até janeiro de 1896, data desse encontro, a sua “epilepsia” não havia sido ainda diagnosticada, pois eles teriam falado sobre isso, uma vez que essa doença já havia sido minuciosamente estudada e descrita desde o final do século XVIII.
A epilepsia não era mais um mistério, embora nas sociedades mais atrasadas ou ignorantes continuasse a ser associada a transtornos psicoespirituais, um meio-termo entre a loucura e a possessão, como em alguns textos que caluniam Moreira César.
Os seus contemporâneos são unânimes em dizer que ele era possuidor de uma energia físico-mental fora do comum, de forma que estava sempre à beira de uma estafa. Essas vertigens, na época chamadas “congestão cerebral”, já eram diferenciadas dos ataques epilépticos e podiam ser perfeitamente resultantes de sobrecarga de trabalho. No mais, o tratamento do Padre Kneipp nunca foi recomendado para a epilepsia.
Não há, portanto, disponível, nenhum testemunho médico declarando que Moreira César sofresse de epilepsia. Quem começou essa história foi o major Cunha Matos, num momento singular da Campanha de Canudos.
Eduardo Simões
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