O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 17
(mudei o subtítulo)
A verdade
de uma foto e uma sombra na nossa história
É comum os
pesquisadores confundirem a execução por degola, ou corte na garganta, com a
decapitação, o seccionamento completo do pescoço, com o descolamento da cabeça.
Na
decapitação, feita por uma espada ou machado, utiliza-se um instrumento de
lâmina grande e/ou pesada para dar um golpe de trás para frente, em geral de
cima para baixo, de sorte a arrancar a cabeça da vítima com esse golpe. Na
degola, ao contrário, o corte é geralmente feito de baixo para cima e da frente
para trás, e visa não separar a cabeça do pescoço, mas cortar a passagem de
sangue para o cérebro pelo seccionamento de veias e artérias no pescoço, em
especial a carótida. O instrumento para isso é qualquer lâmina afiada. Quanto
mais leve, melhor.
Enquanto a
decapitação é uma operação complexa e exige uma certa habilidade ou treino, a
degola é mais fácil, e a morte, sem um socorro adequado e rápido, é inevitável.
É o método de execução ideal dos grupos mais pobres ou mais sádicos.
A degola foi
muito comum na Revolta Federalista, e não a decapitação, que às vezes acontecia
em virtude da profundidade do corte no pescoço, e por isso não faz sentido
chamar Moreira César de “corta-cabeças”. Os jornais da época, como o República
e o Gazeta de Notícias, diziam que o seu apelido era “corta-pescoço”. Quanto ao
“corta-cabeça” e “treme-terra”, esses nomes nunca são mencionados nos jornais
da época, referindo-se a Moreira César. São “invenções” posteriores, de matiz
euclidiano.
Há mais de
um século, a foto acima assombra a memória e a autoimagem festiva e afetiva que
os brasileiros construíram de si mesmos, porque mostra o quanto podemos ser
espontaneamente cruéis e desumanos, como todos os outros povos.
Ela mostra
uma forma de execução comum de prisioneiros durante a Revolta Federalista, nos
três estados do Sul do Brasil, e depois em Canudos. Entretanto, devemos
considerar que:
a) A degola
de prisioneiros não é exclusiva das populações sulinas; antes, foi amplamente
praticada em todo o Brasil, por ser uma forma impressionante, rápida, barata e
eficaz de execução (31). Ela ficou famosa na Revolta Federalista, talvez
por sua frequência, e sua utilização por forças federais e estaduais, logo sob
o guarda-chuva do Estado definido por uma Constituição que proibia a pena de
morte. A degola impressiona também devido ao estremecimento instintivo,
incontrolável, do corpo, enquanto o sangue se esvai por veias e artérias
abertas. Em alguns casos, procedeu-se também à castração da vítima a ser
executada ou já morta, além de outros pedaços de corpos, que eram exibidos como
troféus.
b) Na
Revolta Federalista, dizem, havia dois tipos de degola: a “brasileira”, mais
discreta, que dava um corte superficial no pescoço, seccionando veias ou
artérias, e uma mais profunda, chamada “uruguaia”, um corte profundo de orelha
a orelha, executado pela frente ou por trás.
c) A foto
não é uma encenação, mas uma degola em andamento, com um pouco de sangue já
escorrendo do pescoço da vítima.
d) Esse é um
grupo de federalistas.
Muitos
afirmam que o degolador na foto, de autoria de Affonso de Oliveira Mello, é o
célebre Adão Latorre, mas é errado. O jornal República, de Desterro, de
15 de junho de 1894, reproduz uma matéria saída no jornal O Paiz, do Rio
de Janeiro, de 30 de maio do corrente, que detalha essa foto, numa matéria
intitulada HORROROSO, a qual reproduzo alguns trechos abaixo.
"Dão
estes desprezíveis comparsas [6 adultos e um adolescente, que cercam a cena, da esquerda
para a direita] pelo nome: Capitão Porto, major dr. Fritz, Galdino de Castro
(coronel Carlito), Capitão Estrombel, tenente Alfredo (conhecido por Mocinho)
[que parece querer esconder o rosto] e capitão Dionysio. A criança… o digno
remetente da fotografia, ou não sabe, ou não quis revelar [seu nome], e
nesse caso fez bem…
A
execução deu-se na cidade de Ponta Grossa [PR], perto da estação da estrada de ferro, em um
dos primeiros dias do mês de abril próximo passado [abril de 1894].
Quem o
supliciado?
Não
sabemos…
O
carrasco… era cabo
[do exército ou da polícia?] … Chamava-se Sebastião Juvêncio.”
Endereço da
fonte:
http://hemeroteca.ciasc.sc.gov.br/republica/1894/REP189443.pdf
Pelos dados
do jornal O Tempo, esse fato teria acontecido mais provavelmente entre
15 e 30 de abril, quando os federalistas estabeleceram seu centro de comando,
no Paraná, em Ponta Grossa. Não sabemos o nome da vítima, mas pela sua cor
podemos presumir que era um imigrante e que era civil. O jornal O Tempo, de 1º
de maio de 1894, comentando a retirada dos federalistas de Ponta Grossa, fala
sobre “o degolamento de um pobre
idiota no Paraná, pelo fato de repelir energicamente insultos que lhe atirou um
dos ‘valentes salvadores da pátria’, resume tudo que de abominável e nojento,
praticou essa horda, que felizmente acha-se hoje varrida do solo brasileiro”,
num evidente exagero — a luta se arrastou até 23 de agosto de 1895, quando foi
assinado o Tratado de Paz de Pelotas que pôs fim à Revolta Federalista.
Eduardo Simões
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