domingo, 24 de maio de 2026

 


PÍLULAS DA SUMA TEOLÓGICA (texto dos dominicanos espanhóis)

A Ciência Sagrada é uma ou múltipla (discorre sobre várias realidades diferentes)

Solução. É preciso dizer que a doutrina sagrada é uma única ciência. A unidade da faculdade ou hábito é dada pelo objeto, mas não sob o aspecto material, e sim sob o formal. Por exemplo, o homem, o jumento e a pedra podem ser considerados sob o aspecto formal da cor, o qual é o objeto da visão [sob o aspecto material ou físico eles são diferentes, mas todos compartilham um único aspecto formal: todos têm cor]. Se tivermos em mente que a Sagrada Escritura considera algumas coisas enquanto reveladas por Deus, tudo o que pode ser revelado por Deus se enquadra no aspecto formal de tal ciência [no caso concreto acima, ‘a cor’, no caso da teologia ‘as coisas reveladas por Deus’].

Em relação ao primeiro ponto, é preciso dizer: a doutrina sagrada não se ocupa igualmente de Deus e das criaturas; em vez disso, ocupa-se de Deus como seu objeto principal e das criaturas na medida em que se relacionam com Ele como seu princípio e fim. Isso não a impede de ser uma única ciência. Em relação ao segundo ponto, é preciso dizer: nada impede que as faculdades ou hábitos se diversifiquem ao considerar seus diferentes objetos e, ao mesmo tempo, que esses objetos sejam considerados por uma faculdade ou hábito superior; visto que uma faculdade ou hábito superior considera tudo a partir de uma perspectiva formal muito mais universal. Exemplo: O senso comum lida com o que é perceptível, e o que é perceptível é também objeto da visão e da audição. Portanto, o senso comum, como faculdade, abrange os objetos próprios dos cinco sentidos. Da mesma forma, o que se enquadra no campo das diversas ciências filosóficas pode ser considerado a partir de uma única perspectiva: a de ser revelado por Deus, a doutrina sagrada como uma única ciência. Assim, a doutrina sagrada é como uma imagem da ciência divina, que é una, simples e abrangente.

Nota dos dominicanos espanhóis

Alguns conceitos são essenciais para compreender o alcance da resposta de São Tomás de Aquino. São eles: “objeto”, “hábito”, “poder” e “formal”.

Objeto: ‘o que está aí’ (ob-iacet). O que é alcançado pelo ato humano de uma determinada potência, faculdade ou hábito. Ele especifica (determina a espécie ou a caracteriza nela mesma) essa potência, a tendência que dela procede ou o ato que lhe é próprio. É frequente a distinção entre objeto material e objeto formal… Objeto formal é o aspecto ou formalidade particular considerada no objeto material. No objeto formal, cabe ainda distinguir entre objeto terminativo (enquanto coisa — ut est res (como a coisa é) — ou objeto formal quod (enquanto tal)) o qual é o perceptível do objeto material, o objeto motivo (o que pode ser conhecido, cognoscível, que é aquilo pelo qual é alcançável). No exemplo dado, o asno, a pedra e o homem seriam para a vista o objeto material, a cor o objeto formal terminativo, e a luz o objeto formal motivo.   

[A inteligência artificial do google apresenta essa questão da seguinte maneira:

O objeto formal terminativo é o objetivo final de uma investigação ou o aspecto conclusivo que define uma área do saber. Na filosofia e na metodologia científica, ele representa a finalidade última ou a pergunta específica que se busca responder

Exemplo:

Objeto Material: O corpo humano.

Objeto Formal (Cardiologia): O sistema circulatório e o coração.

Objeto Formal Terminativo (Cardiologia): A finalidade de descobrir, prevenir e curar as doenças cardíacas.

O objeto formal motivo (ou objeto formal quo) é o ângulo, a luz ou a capacidade específica pela qual a mente humana estuda um determinado assunto. Ele representa a ferramenta ou o método utilizado para investigar um problema, diferenciando-se da área de estudo em si (o objeto material).

Diferentes ciências podem estudar exatamente a mesma coisa (objeto material), mas utilizam objetos formais motivos completamente distintos:

Matéria estudada: O ser humano (objeto material).

Medicina: Estuda o corpo sob a luz da biologia e da fisiologia (objeto formal motivo).

Psicologia: Estuda o mesmo ser humano sob a ótica da mente e do comportamento (objeto formal motivo).

Teologia: Estuda o ser humano sob a perspectiva da fé e do espírito (objeto formal motivo)].

 

Formal. O aspecto formal de um ser é consequência de sua “forma” [que está dentro dele como potência e determinação; você pode até fazer a imagem de um burro numa pedra, mas ela não deixará de ser pedra e ninguém a confundirá com o animal, porque falta-lhe naturalmente a sua forma]. Esta tradução deriva do grego μορφή, que nada tem a ver com a aparência externa, como seria em seu uso comum, mas sim com o princípio determinante ou constitutivo de tudo o que existe. É um conceito correlato ao de “matéria”, o qual é indeterminação, potencialidade. As coisas são o que são por causa de sua “forma”, a qual é um princípio intrínseco, constitutivo e operante. O “formal” deriva da determinação essencial de um ser.

 

Hábito é uma disposição estável para agir — pronta, facil e prazerosamente — bem ou mal (dependendo se o hábito é bom ou mau). É gerado e desenvolvido por meio de atos e de sua repetição. Se for operante, é uma disposição das faculdades para agir de um jeito ou de outro em relação a certos objetos. A ciência é um hábito operante [Podemos considerar o hábito também como uma resposta orgânica, estrutural, reforçada pela sociedade (cultura), condicionada pelas possibilidades de assimilação do organismo, que podem, eventualmente, sair ao contrário daquilo que a sociedade pretendia do comportamento daquele indivíduo — a sociedade tem suas contradições].  

Potência, no texto, significa potência ativa, isto é, o princípio imediato da ação. Assim, as faculdades da alma são potências.

 

As Sagradas Escrituras

Nos comunicam todas as coisas que são divinamente reveláveis ou cognoscíveis por meio da Luz Divina. A precisão de São Tomás, neste artigo e no próximo, ao falar de revelabilidade e cognoscibilidade como o objeto formal motivo, e não do que é revelado ou conhecido, é interessante. “Revelado” acrescenta à “revelável” o fato existencial da manifestação de Deus. Mas “revelável” indicaria não apenas a possibilidade de ser revelado, mas também a necessidade de ser conhecido dessa maneira. Ou seja, que a compreensibilidade ou cognoscibilidade do fato revelado é conhecida apenas mediante a luz divina [Deus nos fornece, pelo Espírito Santo, os meios de entender e aceitar a sua palavra, na medida de nosso entendimento]. Com efeito, já anteriormente dissemos que nada impede que as disciplinas filosóficas tratem de algumas coisas conhecidas também por revelação, enquanto cognoscíveis pela luz natural da razão, inclusive, em alguns casos, havendo mesmo a necessidade daquelas. Reafirmamos: o “revelável” não é só o que é revelado, como “visível” é só o que pode ser visto, mas também o que tem que ser revelado para poder ser conhecido. Essa distinção de Santo Tomás antecipou a resposta à oposição nominalista de Pedro Aureolo (1280–1322). Dizia Aureolo: “Se Deus revelasse simultaneamente a filosofia e a geometria, ainda que fosse idêntica a luz que as tornou cognoscíveis, nem por isso seriam uma só ciência”. Efetivamente, a filosofia e a geometria, podendo ser reveladas, não o são, porque não têm que sê-lo, uma vez que a sua cognoscibilidade não supera a razão humana. Já o “revelado”, como diz Caetano, pode entender-se como causado eficientemente, o que não dá unidade à ciência (tudo poderia ser assim revelado); ou o “revelado” pode ser entendido como razão ou modo de entender o objeto [no caso, Deus]. E é por isso que a unidade que Santo Tomás fala “formalmente”, não a diz “revelada”, mas antes “divinamente revelada” [A revelação não apenas mostra o objeto, mas dá a única ferramenta possível para a sua compreensão, estando cada um, o objeto e o entendimento deste, inseparáveis, na própria revelação].

Não é raro encontrar em São Tomás, na sobriedade do estilo da Suma Teológica, afirmações surpreendentes feitas com absoluta simplicidade. Concluindo este segundo ponto, São Tomás vê a doutrina sagrada como o reflexo no homem da ciência divina. Uma fórmula admirável. Se, segundo o ditado escolástico, “o que está disperso nas coisas inferiores está unido nas superiores”, então, ao atingir a realidade suprema, não apenas tudo parecerá unido, mas reduzido à unidade; e não uma unidade de composição, mas uma unidade simples. A doutrina sagrada, portanto, traz a marca da ciência divina.


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