PÍLULAS DA SUMA TEOLÓGICA (texto dos dominicanos espanhóis)
A Ciência Sagrada é uma ou
múltipla (discorre sobre várias realidades diferentes)
Solução. É preciso dizer que a doutrina sagrada é uma
única ciência. A unidade da faculdade ou hábito é dada pelo objeto, mas não sob
o aspecto material, e sim sob o formal. Por exemplo, o homem, o jumento e a
pedra podem ser considerados sob o aspecto formal da cor, o qual é o objeto da
visão [sob o aspecto material ou físico eles são diferentes, mas todos
compartilham um único aspecto formal: todos têm cor]. Se tivermos em mente que
a Sagrada Escritura considera algumas coisas enquanto reveladas por Deus, tudo
o que pode ser revelado por Deus se enquadra no aspecto formal de tal ciência
[no caso concreto acima, ‘a cor’, no caso da teologia ‘as coisas reveladas por
Deus’].
Em relação ao primeiro ponto, é preciso dizer: a
doutrina sagrada não se ocupa igualmente de Deus e das criaturas; em vez disso,
ocupa-se de Deus como seu objeto principal e das criaturas na medida em que se
relacionam com Ele como seu princípio e fim. Isso não a impede de ser uma única
ciência. Em relação ao segundo ponto, é preciso dizer: nada impede que as
faculdades ou hábitos se diversifiquem ao considerar seus diferentes objetos e,
ao mesmo tempo, que esses objetos sejam considerados por uma faculdade ou
hábito superior; visto que uma faculdade ou hábito superior considera tudo a
partir de uma perspectiva formal muito mais universal. Exemplo: O senso comum
lida com o que é perceptível, e o que é perceptível é também objeto da visão e
da audição. Portanto, o senso comum, como faculdade, abrange os objetos
próprios dos cinco sentidos. Da mesma forma, o que se enquadra no campo das
diversas ciências filosóficas pode ser considerado a partir de uma única
perspectiva: a de ser revelado por Deus, a doutrina sagrada como uma única
ciência. Assim, a doutrina sagrada é como uma imagem da ciência divina, que é
una, simples e abrangente.
Nota dos dominicanos espanhóis
Alguns conceitos são essenciais para
compreender o alcance da resposta de São Tomás de Aquino. São eles:
“objeto”, “hábito”, “poder” e “formal”.
Objeto: ‘o que está aí’ (ob-iacet). O
que é alcançado pelo ato humano de uma determinada potência, faculdade ou
hábito. Ele especifica (determina a espécie ou a caracteriza nela mesma) essa
potência, a tendência que dela procede ou o ato que lhe é próprio. É frequente
a distinção entre objeto material e objeto formal… Objeto formal é o aspecto
ou formalidade particular considerada no objeto material. No objeto formal, cabe
ainda distinguir entre objeto terminativo (enquanto coisa — ut est res (como a
coisa é) — ou objeto formal quod (enquanto tal)) o qual é o perceptível do objeto
material, o objeto motivo (o que pode ser conhecido, cognoscível, que é aquilo
pelo qual é alcançável). No exemplo dado, o asno, a pedra e o homem seriam para
a vista o objeto material, a cor o objeto formal terminativo, e a luz o objeto
formal motivo.
[A
inteligência artificial do google apresenta essa questão da seguinte maneira:
O objeto
formal terminativo é o objetivo final de uma
investigação ou o aspecto conclusivo que define uma área do saber. Na filosofia
e na metodologia científica, ele representa a finalidade última ou a pergunta
específica que se busca responder
Exemplo:
Objeto
Material: O corpo humano.
Objeto Formal (Cardiologia): O sistema circulatório e o coração.
Objeto Formal
Terminativo (Cardiologia): A finalidade
de descobrir, prevenir e curar as doenças cardíacas.
O objeto
formal motivo (ou objeto formal quo) é o
ângulo, a luz ou a capacidade específica pela qual a mente humana estuda um
determinado assunto. Ele representa a ferramenta ou o método utilizado para
investigar um problema, diferenciando-se da área de estudo em si (o objeto
material).
Diferentes ciências podem
estudar exatamente a mesma coisa (objeto material), mas utilizam objetos formais
motivos completamente distintos:
Matéria
estudada: O ser humano (objeto material).
Medicina:
Estuda o corpo sob a luz da biologia e da fisiologia (objeto formal motivo).
Psicologia:
Estuda o mesmo ser humano sob a ótica da mente e do comportamento (objeto
formal motivo).
Teologia:
Estuda o ser humano sob a perspectiva da fé e do espírito (objeto formal
motivo)].
Formal. O aspecto formal de um ser é consequência de
sua “forma” [que está dentro dele como potência e determinação; você
pode até fazer a imagem de um burro numa pedra, mas ela não deixará de ser
pedra e ninguém a confundirá com o animal, porque falta-lhe naturalmente a sua
forma]. Esta tradução deriva do grego μορφή, que nada tem a ver com a aparência
externa, como seria em seu uso comum, mas sim com o princípio determinante ou
constitutivo de tudo o que existe. É um conceito correlato ao de “matéria”, o qual é indeterminação, potencialidade. As coisas são o que são por causa de sua
“forma”, a qual é um princípio intrínseco, constitutivo e operante. O
“formal” deriva da determinação essencial de um ser.
Hábito é uma disposição estável
para agir — pronta, facil e prazerosamente — bem ou mal (dependendo
se o hábito é bom ou mau). É gerado e desenvolvido por meio de atos e de sua
repetição. Se for operante, é uma disposição das faculdades para agir de um
jeito ou de outro em relação a certos objetos. A ciência é um hábito operante [Podemos considerar o hábito também como uma resposta orgânica, estrutural,
reforçada pela sociedade (cultura), condicionada pelas possibilidades de
assimilação do organismo, que podem, eventualmente, sair ao contrário daquilo
que a sociedade pretendia do comportamento daquele indivíduo — a sociedade tem
suas contradições].
Potência, no texto, significa
potência ativa, isto é, o princípio imediato da ação. Assim, as faculdades da
alma são potências.
As Sagradas Escrituras
Nos comunicam todas as coisas que são divinamente
reveláveis ou cognoscíveis por meio da Luz Divina. A precisão de São Tomás,
neste artigo e no próximo, ao falar de revelabilidade e cognoscibilidade como o
objeto formal motivo, e não do que é revelado ou conhecido, é interessante.
“Revelado” acrescenta à “revelável” o fato existencial da
manifestação de Deus. Mas “revelável” indicaria não apenas a
possibilidade de ser revelado, mas também a necessidade de ser conhecido dessa
maneira. Ou seja, que a compreensibilidade ou cognoscibilidade do fato revelado
é conhecida apenas mediante a luz divina [Deus nos fornece, pelo Espírito
Santo, os meios de entender e aceitar a sua palavra, na medida de nosso
entendimento]. Com efeito, já anteriormente dissemos que nada impede que as
disciplinas filosóficas tratem de algumas coisas conhecidas também por
revelação, enquanto cognoscíveis pela luz natural da razão, inclusive, em
alguns casos, havendo mesmo a necessidade daquelas. Reafirmamos: o “revelável”
não é só o que é revelado, como “visível” é só o que pode ser visto, mas também
o que tem que ser revelado para poder ser conhecido. Essa distinção de
Santo Tomás antecipou a resposta à oposição nominalista de Pedro Aureolo
(1280–1322). Dizia Aureolo: “Se Deus revelasse simultaneamente a filosofia e a
geometria, ainda que fosse idêntica a luz que as tornou cognoscíveis, nem por
isso seriam uma só ciência”. Efetivamente, a filosofia e a geometria, podendo ser
reveladas, não o são, porque não têm que sê-lo, uma vez que a sua
cognoscibilidade não supera a razão humana. Já o “revelado”, como diz Caetano,
pode entender-se como causado eficientemente, o que não dá unidade à ciência
(tudo poderia ser assim revelado); ou o “revelado” pode ser entendido como
razão ou modo de entender o objeto [no caso, Deus]. E é por isso que a unidade
que Santo Tomás fala “formalmente”, não a diz “revelada”, mas antes
“divinamente revelada” [A revelação não apenas mostra o objeto, mas dá a única
ferramenta possível para a sua compreensão, estando
cada um, o objeto e o entendimento deste, inseparáveis, na própria revelação].
Não é raro encontrar em São Tomás, na sobriedade do estilo da Suma Teológica, afirmações surpreendentes feitas com
absoluta simplicidade. Concluindo este segundo ponto, São Tomás vê a doutrina
sagrada como o reflexo no homem da ciência divina. Uma fórmula admirável. Se,
segundo o ditado escolástico, “o que está disperso nas coisas inferiores
está unido nas superiores”, então, ao atingir a realidade suprema, não
apenas tudo parecerá unido, mas reduzido à unidade; e não uma unidade de composição,
mas uma unidade simples. A doutrina sagrada, portanto, traz a marca da ciência
divina.
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