O CORONEL MOREIRA CÉSAR E
CANUDOS DEVEM MORRER
A HISTÓRIA DE UMA INJUSTIÇA — 18
O corpo
do almirante Saldanha, um prelúdio.
O Jornal do
Comércio do Rio, em sua edição de 23–24 de junho de 1930, p. 4, traz uma longa
matéria sobre as buscas feitas por alguns federalistas para achar o corpo de
Saldanha da Gama, após a batalha de Campo Osório, em 24 de junho de 1895. Ela
nos dá uma ideia da selvageria nos combates da Revolta Federalista, selvageria
que se repetirá, 2 anos depois, em Canudos.
Essa
história se inicia em 25 de junho, quando os federalistas no Uruguai receberam
a nova de que a sua última esperança de uma reação militar, visando alcançar
uma paz digna, com Saldanha da Gama, acabou no falecimento deste. A batalha
ocorreu em Campo Osório, nas proximidades de Santana do Livramento, de frente
para Rivera, no Uruguai. Ao pequeno grupo de exploradores federalistas
juntou-se o irmão do almirante, que era médico e iria supervisionar a autópsia
do cadáver.
No dia 26 de
junho, esse grupo, que partiu de Montevidéu, chegou a Rivera, quando, à noite,
“fomos dolorosamente surpreendidos pelos ruidosos ecos da estrepitosa
manifestação tributada [em Santana do Livramento]… aos comandantes das
forças governistas, de regresso de Campo Osório… Ouvimos melancólicos o
espoucar dos foguetes e os acordes das bandas militares dos vencedores.”
O articulista lembra ainda que essa algazarra mudou para um silêncio profundo,
quando, a 29 de junho, chegou a notícia da morte de Floriano Peixoto.
No dia
seguinte, eles chegam a Santana do Livramento, onde têm a oportunidade de
escutar dos soldados que participaram da batalha a primeira versão sobre a
morte do almirante, derrubado do cavalo por lancetadas, e depois morto com
golpes de espada na cabeça. Com muito tato e cuidado, colhem informações e se
preparam para ir ao local do combate. No dia 2 de julho, saem para resgatar o
corpo do almirante.
“Saímos
de Rivera ao meio-dia. Compunha-se nossa comitiva de um break com 6 pessoas —
uma carroça com caixão metálico para os restos do almirante, mantimentos, pás…
quinze cavaleiros entre oficiais da marinha e paisanos.”
A viagem não
foi confortável; andaram em lugares ínvios e pegaram chuva e névoa, havia muita
gente armada e hostil nos arredores. “Após uma hora de marcha,
divisamos, à grande distância, densas nuvens de corvos [entre os gaúchos,
emprega-se o termo “corvo” para “urubu”]… era lá que estava a carniça… Fomos
avançando, vagarosamente… Lufadas de exalações nauseabundas impestavam a
atmosfera e aumentavam à medida que subíamos”
Súbito, numa volta, “um cadáver, de costas sobre um
cavalo, em adiantado estado de putrefação… era o Chaves, vulgo Paraguaio… rapaz
muito moço ainda, da gente do almirante… a seguir, à esquerda, outro corpo
acocorado — que deixou os expedicionários em dúvida se era branco ou preto,
sendo denunciado pelos pés. Um dos pés do infeliz, realçava-se, já um tanto
marmoreado [esbranquiçado], sobre a nudez escura do corpo em
decomposição.
À
direita, quase de pé… um homem, jovem ainda, com a cabeça quase decepada por
formidável corte de orelha a orelha, pondo-lhe o esôfago à mostra [sinal da degola uruguaia], macabramente
ria-se… “Este foi degolado depois de morto”, cochicharam… “Não correu sangue, —
a camisa não está manchada.”
Finalmente
alcançam um chapadão, onde se deu o grosso da batalha, fazem então uma pausa
para se alimentar. Churrasqueamos… entre cadáveres de homens e cavalos, num
ambiente insuportável… aqui o corpo de um sargento do exército, um belo rapaz…
que pareceria mais belo se não fosse o bando de varejeiras que lhe entravam
pelos olhos e saíam pelo nariz — ali o destemido conde alemão von Schewerin,
entusiasta do almirante… Acolá, um desconhecido.
Procedeu-se,
em seguida… rigoroso exame do campo de batalha… as pás e picaretas
dificilmente penetravam no chão [que era muito pedregoso, como em Canudos]… de
sorte que nos vimos reduzidos a... cobrir os preciosos restos de pedras soltas,
deixando às vezes os pés de algumas vítimas destapados [Como em Canudos]. No
descampado… entre as trincheiras… jaziam alguns corpos carbonizados e
horrivelmente deformados pelo fogo [Como em Canudos].”
No alto de
uma árvore pequena, encontraram “completamente nu — estirado com
pernas e braços abertos — o corpo de um adolescente, de uma criança quase, com…
orifício de uma bala na altura do coração.” Começa então um debate se
ele era um oficial ou não, em virtude do cuidado de suas unhas e de seu corpo
em geral. “Unhas limpas — homem de trato”… Em todo o caso, um dos que
atiravam quando o Almirante tombou — “Sá Peixoto” — É possível.” Enterraram-no.
Somente 4
corpos de federalistas em Campo Osório estavam vestidos. Muitos apresentavam
feridas no pescoço a guisa de degola, feita antes ou após sua morte. Ao
desnudar o corpo, facilita-se a ação dos animais carniceiros e acelera-se o
processo de putrefação.
Mas, apesar
de todo o trabalho, não foi possível achar o corpo do almirante Saldanha, que
só será encontrado por um sargento da Marinha, procurando-o por conta própria,
no dia 28 de julho, a quase um quilômetro e meio de distância da batalha. Era
um lugar remoto, difícil de achar, denunciado pelo voo dos urubus. Fora posto
ali com o claro objetivo de fazê-lo desaparecer, devorado pelos animais, apesar
da ordem de Prudente para o corpo ser entregue aos familiares.
O corpo foi
autopsiado no dia 10 de agosto de 1895, por médicos liderados pelo irmão do
almirante. Nessa autópsia, constatou-se que Saldanha da Gama recebeu duas
lancetadas na região do ventre, uma em cada lado, e dois golpes de espada na
cabeça, à altura da têmpora, um deles fatal. O corpo também mostrou a falta de
uma orelha e metade do bigode tinha sido raspado — talvez uma ironia ao célebre
episódio em que ele ordenou a um marujo, que lhe jurara morte após uma punição,
para vir fazer a sua barba.
Quem quiser
mais detalhes sobre as buscas e os seus impactos na sociedade, leia o livro do
almirante Honorato Paiva, Apoteose do almirante Saldanha da Gama, de 1896,
disponível na internet.
Após a
autópsia, o corpo do almirante foi sepultado no cemitério de Rivera, onde
permaneceu até 1908, quando foi trasladado para o Brasil, com os ossos do almirante
Barroso. Saldanha mereceu um belo monumento em sua sepultura no cemitério de
São João Batista, no Rio de Janeiro, além de muitos outros de que se tornou
merecedor.
O coronel
Moreira César não teve essa sorte.
Eduardo Simões
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